
Manual das donas de casa caçadoras de vampiros – Grady Hendrix
Patricia Campbell tem uma vida normal de dona de casa: seu marido só trabalha, seus filhos adolescentes só a destratam e além do cuidado com a casa, ela precisa dar atenção para a sogra idosa e doente. Patricia está exausta. Seu único descanso é o clube do livro que tem com as amigas, onde leem e discutem livros de crimes reais, além de várias coisas sobre o dia a dia.
Um novo vizinho não é comum nas pequenas cidades do sul dos EUA. Mas James Harris chega e encanta todos com seu charme e jeito para os negócios. Coincidentemente, crianças começam a desaparecer, Patricia é atacada em seu quintal e ratos e baratas começam a agir de forma organizada e agressiva. Patricia suspeita de Harris e vai usar todo o conhecimento investigativo que adquiriu lendo. Mas alguém vai acreditar nela sozinha? Talvez o clube do livro tenha que se envolver nessa história, pelo bem de toda a cidade.
Eu não sei nem quantos anos faz desde a última vez que li um livro de terror. Mas eu estava precisando sair de uma ressaca literária de qualquer jeito, e é uma boa leitura de praia.
Já começo dizendo que Manual das donas de casa caçadoras de vampiros funcionou para mim porque eu senti medo. Sei que eu estivesse em casa, não em apartamento, eu teria que parar de ler de noite. A Miss Mary é assustadora do começo ao fim, mas o mais forte para mim foram as cenas com as baratas e os ratos.
Preciso elogiar o vampiro. Ele aqui foge do tradicional Conde Drácula, puxando mais para o Nosferatu e sua associação com pragas e insetos, mas não perdendo um aspecto sexual explícito. Seu modus operandi cíclico, manipulando dinheiro, foi uma sacada de mestre, mas algo que nenhuma personagem percebeu, o que foi uma oportunidade perdida. Esse não foi o único ponto alto do livro, já que a ambientação de época está perfeita. Eu me senti dentro de uma cidadezinha do Sul dos EUA nos anos 80/90. O autor realmente se preocupou em ressuscitar a sua infância.
Infelizmente, acho que aqui havia um outro livro a ser escrito, o que demonstra uma limitação gritante do autor. Aqui, ele compactua com o clichê do gênero de personagens pretos morrerem primeiro. Na verdade, todos os personagens pretos aqui só existem para morrer, exceto a senhora Greene, que é o estereótipo do negro mágico. Considerando que o terror tem um grande foco em criticar algum aspecto da sociedade, essa tentativa mequetrefe de discutir o racismo foi um tiro no pé – se não vai fazê-lo bem, não o faça. Ainda mais considerando que o gênero do true crime, que também aparece na história através do clube do livro, é ainda mais racista do que o terror, já que comumente exclui por inteiro as histórias de pessoas não brancas.
A crítica que ele fez bem foi ao modelo patriarcal das tradicionais donas de casa do Sul estadunidense. Quer dizer, até um certo ponto. Elas têm todas a mesma personalidade, que é quase nenhuma, então são praticamente a mesma personagem (à qual você não se apega). Grady Hendrix é um homem tentando escrever mulheres e falhando miseravelmente nisso, porque o livro promete ser cheio de girl power e amizade feminina e não tem nenhuma dessas coisas. Na verdade, é exatamente o contrário – essas mulheres são oprimidas por todos ao seu redor e não gostam tanto assim uma da outra. O próprio título mente para você. Se o autor soubesse algo sobre alguma coisa, saberia que, quando uma mulher suspeita algo sobre um homem, suas amigas a apoiam até a morte, incondicionalmente. Hendrix retratou como os sulistas americanos são falsos e péssimos amigos até a água bater na bunda (ou alguém fazer um monólogo e algumas pessoas verem um cadáver), mas duvido que essa tenha sido a intenção.
O real terror de Manual das donas de casa caçadoras de vampiros são as vidas, os maridos e os filhos dessas mulheres. Os filhos de Patricia são horríveis, e me questiono se existem adolescentes assim de verdade ou se Hendrix nunca conversou com um depois de virar adulto. Os maridos são todos péssimos, e quando eles se juntam contra suas esposas, eu temi pela minha vida. Às vezes, não dava para saber se eram os anos 90 ou 50. Mas, como é um homem escrevendo mulheres, ele não consegue extrair todo o potencial do tema. Mas não espere nenhuma resolução satisfatória em relação a isso, ok? Patricia e seus filhos magicamente se reconciliam e nenhum marido nunca fica ciente do mal que fizeram para suas esposas, nem lhes é revelado o vampiro. Eu deveria acreditar que perder dinheiro no final é retribuição o suficiente? Faça-me o favor.
Acho que continuarei lendo os livros de Grady Hendrix. Já entrarei nos próximos com expectativas baixas. Foi a leitura de que eu precisava no momento, a escrita é boa e li rápido. Mas ele deve tomar muito cuidado com os temas que aborda em seus livros. Digo mais, talvez ele devesse parar de escrever mulheres como personagens principais, porque ele não sabe fazer isso.
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