
Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves
Aos oito anos de idade, Kehinde é sequestrada e escravizada no Reino do Daomé. A travessia da África para o Brasil é uma tortura por si só, na qual todos sofrem condições subumanas e nem todos sobrevivem. No Brasil, Kehinde vive na Ilha de Itaparica, na Bahia. Mas sua vida não se resume a isso. Ela morará ainda em muitos lugares, incluindo Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Kehinde conta a história de seus amores, suas casas, sua religião, suas revoluções, até usar o dinheiro que ganhou como uma empresária de sucesso para comprar sua carta de alforria e voltar para a sua amada África, direto para o Daomé. Ainda assim, ela não é plenamente feliz. Enquanto não encontrar seu filho desaparecido, Kehinde não descansará.
Um defeito de cor merece todo o hype que tem. Essas 950 páginas são o produto de minuciosa pesquisa, escritas com ritmo e linguagem bons de acompanhar, fugindo do comum e do moderno. Tudo bem, considerando que esse é um romance histórico, adequar a linguagem não é nada mais que a obrigação da autora, mas o livro tem uma cadência mais africana na sua contação da história. Um toque muito legal é a Kehinde explicando os significados dos nomes africanos, mas é triste ver que ela vai perdendo essa capacidade ao longo da história, principalmente com os nomes de brancos, já que não funcionam da mesma maneira. Infelizmente, acho que Ana Maria Gonçalves pesa a mão na exposição algumas vezes, principalmente na parte da rebelião dos muçurumins contra a escravatura. Há vários trechos, por conta disso, que são cansativos de ler – ainda bem que eu estava no Kindle, senão teria desanimado.
Ana Maria Gonçalves não poupa detalhes, criando um rico mundo e transportando o leitor diretamente para a África e o Brasil do século XIX. Esse livro me deixou com a certeza de que preciso ir à Bahia, principalmente para comer tudo o que eu li. Gostei muito de acompanhar a trajetória da Kehinde na Ilha de Itaparica e em Salvador e região, na Bahia (que para mim são as partes mais fortes) até ela deixar a província para nunca mais voltar. Algo que me motivou muito na leitura foram os pequenos spoilers que a narradora foi dando ao longo da história, antecipando para todos nós suas mudanças e tristezas.
Para mim, este é o magnum opus sobre a escravidão. Como que alguém ainda pode recomendar Kindred com Um defeito de cor no mercado? A autora se preocupa em nos dar uma visão ampla e quase completa desse período através da Kehinde. Tem escola usando ele de paradidático? Acho difícil pelo tamanho.
Como o livro é uma grande saga, um verdadeiro épico da escravatura, é personagem até dizer chega. Eu já disse que minhas preferências estão sempre ali com Itaparica, tanto em trama quanto em personagens. Amo a amizade da Kehinde com a sinhazinha e odeio junto com elas a Ana Felipa. Esméria, Sebastião, Tico, Hilário, até o Lourenço são muito queridos para mim, além do Baba Ogumfiditimi em Salvador. Mas é óbvio que Um defeito de cor não é um livro tranquilo, e você vai ver toda essa gente sofrer um bocado. E sinceramente, agora que estou aqui pensando, poucas personagens têm um final feliz. Já fica o aviso.
Meu único problema, mesmo, é com o final. Já desde o começo do livro nós sabemos que a Kehinde vai voltar para a África, mas foi aí que ela me perdeu. Em Uidá, e depois em Lagos, ela não se conecta de verdade com ninguém – nem com os filhos (o que foi uma grande perda, considerando que eles são ibêjis como ela e a Taiwo e podíamos ter tido comaprações), nem com o marido, nem com amigos, nem com a terra. Assisti Kehinde se tornar uma senhora elitista, hipócrita e capitalista, que não teve nem a pachorra de ir pessoalmente a Savalu. Ela, que sofreu tanto com a escravidão, tem amigos escravocratas e começa a falar que cada um tem que cuidar do seu para justificar sua inação quanto a isso. Tudo o que ela quer é dinheiro, sendo que ela enriquece rápido, e voltar para o Brasil. Isso me irritou demais.
Kehinde fala da comunidade brasileira na África como tendo muito arrependimento de ter retornado, mas em nenhum momento reconhece o mesmo sentimento dentro dela. Para mim, está claro – no Brasil, ela falava bastante das pessoas na África, da comida, da língua, da religião, tendo um verdadeiro orgulho de ser africana, dos orixás e dos voduns. Já em Uidá, e depois Lagos, Kehinde se envolve com a igreja católica, batiza seus filhos com nomes brasileiros sem dar a eles um nome africano também, vive em casas brasileiras, importando tudo o que consome e usa do exterior, e só fala da Bahia. Além disso, ela só chama os africanos que não vivem na sua bolha de selvagens. Eu entendo que a autora usa a Kehinde como o meio de mostrar a maior quantidade possível de coisas que aconteciam com os escravizados naquela época. Realmente, é muito interessante ver essa comunidade de retornados na África e a elite que eles se tornaram, e não duvido que muitos pensassem desse jeito, mas isso foi feito às custas de toda a caracterização da personagem ao longo das centenas de páginas anteriores.
A “missão” da Kehinde é muito mencionada, mas parece que a autora se esquece dela no final, porque fiquei sem saber qual era e se ela havia sido cumprida – eu achei que teria algo a ver com a luta pela abolição da escravatura, mas considerando o posicionamento da Kehinde no final, acho melhor não. Também não poderia ter sido ser uma vodunsí completa, já que ela não terminou seu treinamento e preteriu os voduns e os orixás em favor do catolicismo, apesar de acreditar que todas as religiões tinham meio que a mesma origem. Eu espero que a missão de vida dela não fosse ter filhos, principalmente o Omolunde, que depois lutariam por um mundo melhor – seria bem palha.
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