Gideon, a Nona – Tamsyn Muir ?>

Gideon, a Nona – Tamsyn Muir

Gideon está doida para fugir da Nona Casa. Apesar de ter sido criada no planeta frio e desolado que abriga esse culto aos mortos e seus ossos liderado por poderosos necromantes, a guerreira não aguenta o abuso ao qual é submetida. Gideon guarda seus poucos pertences, incluindo sua espada e suas revistas de mulher pelada, e busca executar seu último plano de fuga.

Harrowhark Nonagesimus, herdeira da Casa, poderosa necromante de ossos e inimiga mortal de Gideon, por outro lado, não pode permitir que a guerreira saia do planeta. Harrow recebeu um convite irrecusável do Imperador. Todos os herdeiros das nove Casas devem se reunir na Primeira para passar por um teste de seus conhecimentos e habilidades sobre a morte. Nonagesimus tem chance de se tornar uma serva imortal e invencível do Imperador e salvar a Nona Casa do fim certo – se levar consigo um cavaleiro, e não há ninguém melhor na Nona do que Gideon.

A Primeira Casa, porém, trará à tona segredos que nunca deveriam ter saído de seus túmulos.


Talvez Gideon, a Nona seja o mais singular que eu tenha lido em muito tempo. Eu não sou da ficção científica, leio muito pouco e não sou grande fã. Mas eu sabia que era bom e fujo de spoilers há anos, então o livro não me surpreendeu com sua qualidade. A construção do universo me lembrou Duna com a estrutura das Casas e o Império, mas o sistema de magia necromante é totalmente único. É uma ótima jogada que há tipos diferentes de necromantes – os que mexem com ossos, com sangue, ou com espíritos, por exemplo – já que, normalmente, um necromante é um necromante e faz qualquer coisa relacionada à morte. Assim, adiciona complexidade a uma magia relativamente simples de entender.

Por outro lado, Tamsyn Muir sofre seriamente de síndrome de “o leitor vai entendendo no caminho”. A mecânica é explicada muito pouco, talvez por causa da Gideon, que não entende nada disso e não me parece muito a fim de aprender. Algumas explicações são confusas e tive que reler várias vezes para entender melhor, apesar de ainda assim ter saído pensando “acho que foi isso que aconteceu” e atribuindo significados a termos que não foram esclarecidos nem pela autora nem pela minha cabeça. Acho esse um ponto negativo que poderia facilmente ter sido corrigido. Mesmo com a falta de explicações, por outro lado, a mecânica é crível, com regras claras e bem estabelecidas. Eu só gostaria de ter saído do livro especialista em necromancia.

Faço a crítica pensando que não curti muito a escrita da autora. Densa e complexa, ela não te dá espaço para respirar nem oportunidade de absorver a mecânica. O livro está longe de ser mal escrito – o sistema de magia é forte, as personagens têm personalidades distintas e a trama tem um bom ritmo. Mas eu li bem devagar. Dei uma folheada na tradução da Alta e arrisco dizer que eu teria me dado melhor com ela. Talvez eu me dê melhor com a autora nos próximos livros, afinal, ela é ousada.

Essas personagens diferentes me encantaram. Adoro histórias em que a identidade sexual das personagens queer não é um conflito, então foi muito bom ver nossas principais, Gideon e Harrow, podendo ser lésbicas em paz. Outras personagens parecem também ser queer, mas aí não sei. Indo por Casas, em resumo: o Professor da Primeira Casa é um fofo, queria ter visto mais dele; a Segunda Casa foi pouco escrita, uma pena, já que ela e sua importância para o Cohort têm uma ligação com os motivos iniciais da Gideon – adoraria ter visto ela conhecendo as BABACAS da necro e a cav da Segunda e mudando de ideia sobre o Cohort; a Terceira Casa é uma doideira do início ao fim; fiquei com muita dó dos adolescentes da Quarta Casa, que foram muito bem escritos (insira aqui flashbacks de guerra da minha adolescência), mas o papel da Casa em si foi pouco explicado; Magnus Pent da Quinta Casa minha vida, mas sua Casa também foi pouco explorada; Palamedes e Camilla da Sexta têm a melhor dinâmica e me identifiquei muito com ele; a Sétima Casa é outra que é doida e muito interessante, graças à sua cultura do câncer; é muito difícil não transformar os da Oitava em vilões, porque eles pedem, mas a dinâmica deles no final ficou MUITO interessante; por fim, a Nona é a Nona, né, a melhor estabelecida. Gostei da dinâmica da Gideon e da Harrow e da evolução do relacionamento delas. Adorei ver como elas começaram a se aproximar depois de tanto tempo se odiando – parece natural, principalmente porque elas começam a ser sinceras uma com a outra sobre seus sentimentos.

Gideon, a Nona é cheio de mistérios. Nem todos são bons – faltaram mais informações sobre a dinâmica interplanetária do Império e do papel político e social das Casas. Tudo bem que os próximos livros podem vir a falar disso, mas como tínhamos todas as Casas juntas no primeiro, super poderia ter rolado um papo mais político que foi prometido quando as meninas ainda estavam na Nona, mas que não rolou. Além disso, eu deveria gostar do Imperador ou não? Haverão vibes colonialistas? Muitas perguntas. Ansiosamente lendo os próximos livros.

Enfim – a estadia e os desafios na Primeira Casa são misteriosos e assustadores. Não consegui prever muita coisa (pontos pra autora!), então senti medo real e surtei com cada uma das várias revelações e reviravoltas.

Se você gostou de Gideon, a Nona, de Tamsyn Muir, você vai gostar de:

Harrow the Ninth – Tamsyn Muir;

Nona the Ninth – Tamsyn Muir;

The Stone Gods – Jeanette Winterson.

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