
A Bienal de Quadrinhos 2025 e o quadrinho brasileiro
Já tem quatro anos que não vou a uma Bienal do Livro, e infelizmente me parece que isso não será remediado tão cedo. Fui à Bienal de Quadrinhos aqui em Curitiba em setembro de 2025 meio na louca, sozinha, imaginando que eu ia passar só um dia no evento. Acabei indo todos os dias e vendo um monte de palestras, o que não estava nos meus planos. Claro, também conheci um monte de artistas que eu já seguia e gente nova, além de ter comprado várias coisinhas.
Saí do evento revigorada. Esses últimos anos, muitos eventos literários têm me exaurido. Não é só um problema das multidões e filas, dos preços que não são tão bons, mas também do foco no consumismo (e no que é mais popular no Tik Tok). A Bienal de Quadrinhos de Curitiba foi um sopro de ar fresco, criado por gente apaixonada por um gênero muitas vezes deixado de lado. Muitas palestras mostraram como os quadrinhos são um campo de batalha para discutir pautas sociais e impactar um amplo público.
Então aqui estão pequenas resenhas dos livros que comprei na Bienal. Só um deles não é nacional, criado por uma convidada libanesa ao evento. O Brasil está muito bem-servido de quadrinistas. Também, nós somos o país da Turma da Mônica! Mas nós, leitores, devemos expandir nossos horizontes e sempre buscar um pessoal novo. Espero que aqui, você os encontre.
Contos dos Orixás – Hugo Canuto
Esta é uma série de quadrinhos com um conteúdo muito importante para mim. Minha família tem pouco contato com a umbanda, então Contos dos Orixás me ensinou muito sobre a religião. Pude finalmente botar rostos a nomes que eu conhecia e me foi muito útil na leitura de Dona Flor e seus dois maridos e Um defeito de cor. A arte não é o meu estilo, muito inspirada pelos quadrinhos estadunidenses, mas o segundo se distancia mais dessa estética Marvel, o que me agradou. O uso de cores e a composição dos cenários foram do que mais gostei, fora a composição das cenas de batalha. Uma obra importantíssima para o mundo, elevando a religião e tradição afro-brasileira.
Assisti a algumas palestras do Hugo na Bienal de Quadrinhos e fica claro que tudo o que ele bota na página tem muita intenção. O quadrinista tem muita consciência da importância da sua história e fico feliz de acompanhá-lo.

Filosofia do mamilo – Kael Vitorelo
Esse aqui me pegou de jeito. Kael conta a história de uma pessoa não-binária tentando fazer uma mastectomia pelo SUS. Esse quadrinho foca na não-ficção, nos desafios jurídicos e médicos que pessoas trans enfrentam todos os dias para apenas viver no Brasil. É um quadrinho que entristece e enraivece, tanto que ficou em 3º lugar no meu top 10 de 2025. Infelizmente, não vi muitas palestras de Kael na Bienal de Quadrinhos e acabei adquirindo o volume meses depois na famosa Itiban aqui em Curitiba (até porque esgotou no artists’ alley). Na época do evento, eu pensava que Filosofia do mamilo seria algo diferente, mas fico feliz de ter dado mais uma chance.

Bom dia, Socorro – Paulo Moreira
Paulo Moreira é um dos meus quadrinistas brasileiros preferidos pelo seu uso de cores e humor. Bom dia, Socorro é intrinsecamente brasileiro – essa curta história é a batalha épica entre duas senhoras usando mensagens de bom-dia. Essas personagens principais estão presentes em qualquer família, então todo mundo vai rir muito. O livro ficou em 10º lugar no meu top 10 de 2023.
Muda de chá – Lark
Eu não esperava que ia gostar tanto desse quadrinho! Eu tinha acompanhado um pedaço pelo Instagram da Lark e resolvi dar uma chance pra ele na Bienal de Quadrinhos. O que foi publicado na internet não faz jus ao que é essa história. Amo a arte, o uso de cores, o design de personagens e até o tamanho do livro, porque consigo ver bem os detalhes. Esse mundo inspirado na cultura andina é uma graça. A estética é única, as cores se encaixam perfeitamente com a paisagem sem deixá-la sem-graça. Não é tão vibrante quanto a América Latina amazônica à qual estamos acostumados, mas é linda igual. Essa é uma história sobre chá que não é só sobre chá. A referência é rápida de pegar e a mensagem é importantíssima nos dias de hoje. Muda de chá ficou em 4º lugar no meu top 10 de 2025.

Eduardo e Afonso – Yoshi Itice
Um quadrinho curto e bem bonitinho sendo republicado agora pela JBC. Tem uma pegada mais infantil, mas eu ainda gostei da história. Neste primeiro volume, acompanhamos dois irmãos em uma jornada semiapocalíptica. O detalhe? Um deles é uma secadora de roupas. A mensagem sobre carregar fardos que não mais lhe convêm é tocante também para adultos. Fiquei interessada em ler os próximos.

Dormindo entre cadáveres – Luís Moreira Gonçalves & Felipe Parucci
Alguma vez Felipe Parucci errou? Que livro incrível, li de uma vez só, apesar do tamanho. Dessa vez, o quadrinista escreveu em conjunto com um médico português que trabalhou em um hospital de campanha no Norte do Brasil na época do COVID. A arte espelha perfeitamente o desespero e o cansaço do Luís no hospital de campanha. A história é pesada, mas acho poético que li o quadrinho no dia que o Bolsonaro foi condenado. Acompanhar o trabalho da linha de frente é macabro, porque sim – nós estamos nos esquecendo da pandemia. Eu nem me lembrava de um monte de coisa que se passa no quadrinho, é uma desgraceira sem igual. É insano pensar o quanto o mundo mudou graças à COVID e como eu me esqueço, no dia a dia, que as coisas eram diferentes.
O livro me fez pensar muito na vida abençoada que levei durante a pandemia, sem perder ninguém pra doença (sinceramente, a pior coisa foi não ter formatura do ensino médio). Dentro da cabeça de um médico que teve que aprender a entubar pacientes, o leitor embarca em uma viagem para um passado recente demais, que se torna impossível de ignorar. Juro, essa foi minha parte preferida – começamos com uma personagem tentando de tudo para salvar vidas, terminando completamente desassociada em nome de sua própria sobrevivência. Dormindo entre cadáveres ficou em 9º lugar no meu top 10 de 2025.

Obrigada, foi um transtorno – Cecília Ramos (Cartumante)
Finalmente conheci a Cartumante, uma de minhas quadrinistas favoritas, e quem acompanho há muitos anos. Esse livro é o único que tenho dela, uma coletânea de tirinhas com temas variados. Recomendo conhecer o trabalho dela, que agora está numa fase muito interessante.
O jogo das andorinhas – Zeina Abirached
Essa é minha única exceção ao “quadrinho brasileiro” do post, já que a autora foi convidada para a Bienal. O jogo das andorinhas é um relato pessoal da infância de Zeina Abirached durante a guerra civil no Líbano. A arte à la Persépolis é perfeita para retratar a tensão da guerra. Gostei da história, que foca muito mais no aspecto humano do momento do que no político. Ainda assim, não é um tema que me interesse muito, nunca curti histórias de guerras, sejam elas civis ou mundiais. Todas as personagens são muito legais, mas minha preferida é a pobre da Anhala, que viveu basicamente escravizada a vida toda.








