
Dona Flor e seus dois maridos – Jorge Amado
Florípedes Paiva, ou melhor, dona Flor, é ótima cozinheira. Ela é professora em sua própria escola de culinária, famosa pelos seus temperos e suas receitas baianas tradicionais. É assim que ela sustenta a casa e o vício do marido Vadinho em bebida e jogo. O casamento deles não é fácil, mas Vadinho é um homem sensual e apaixonado que prende Flor em suas garras. A vida boêmia, porém, o alcança, e Vadinho cai morto em pleno Carnaval.
Eventualmente, Flor se casa de novo, com um homem que não poderia ser mais diferente do seu primeiro marido. O farmacêutico Teodoro é tímido, culto e tradicionalista. Flor nunca se sentiu tão segura no seu segundo casamento, mas há algo faltando. Ela não consegue parar de pensar em Vadinho, o que culmina no homem voltando como espírito para assombrar os recém-casados.
Vivendo com dois maridos, dona Flor precisa escolher entre o vivo e respeitoso e o morto e erótico que não a deixa em paz.
Dona Flor e seus dois maridos quase venceu de mim. Quase abandonei. O começo é difícil, porque Vadinho é péssimo. Ele é um péssimo marido pra pobre da dona Flor – joga, aposta, tem casos com prostitutas e até alunas da esposa. O começo do livro é marcado pelo narrador fazendo uma longa exposição do porquê o Vadinho é um mau marido, para logo em seguida colocar uma cena ali para ilustrar a mesma coisa. E depois vai fazer isso várias vezes de novo. É repetitivo ao extremo, cansativo, e eu estava de saco cheio de todo o palco dado para um marido abusivo.
Mas finalmente, com a chegada de Teodoro, tudo mudou. O relacionamento dele e de Flor é melhor, respeitoso e fofinho. Claro, é bem mais patriarcal e machista, tradicional de 60 anos atrás. Mas não tem comparação. Eu gostei da Flor e de sua paixão por ensinar na escola Sabor e Arte. Nessa segunda metade, quando ela finalmente tem paz, criei uma conexão maior com ela. Não vou mentir – achei as partes sobre música chatas, não é algo que me interessa nem um pouco, então li por cima. Mas essa segunda metade é bem melhor.
A última parte, então, nem se fala. Acho um pouco ridículo que tudo o que já vi sendo falado sobre Dona Flor e seus dois maridos seja, na verdade, sobre essa última parte, que é uns 20% do livro. Fico feliz de ter me educado o mínimo sobre religiões de matriz africana para ligar os nomes dos orixás que aparecem com suas personalidades, já que são um destaque insólito e bem diferente nessa parte. Por sinal, fiquei morrendo de vontade de conhecer a Bahia e comer um monte das comidas que aparecem no livro. Essa é a melhor parte, sem sombra de dúvidas, mas me senti meio enganada. Até porque me é inconcebível, no século 21, que dona Flor tenha alguma dúvida entre os dois maridos. Teodoro lhe dá tudo o que precisa, mas não a satisfaz sexualmente como Vadinho. O sexo é, literalmente, a única virtude do primeiro marido, e a única coisa de que Flor sente falta. É claro que faz sentido para a época, já que o prazer e a agência das mulheres no sexo não era levado em conta (e bato o pé que era pior do que hoje em dia, que já não é lá essas coisas). Mas eu só queria entrar no livro pra dar um vibrador pra pobre da dona Flor e botar ela pra ouvir uns podcasts sobre empoderamento sexual pra coitada resolver essa frustração.
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