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Piranesi – Susanna Clarke

Demorei muito para escrever essa resenha. É difícil. Piranesi é o tipo de livro que é bom você ler sem saber muito. Acho que não saber muitos detalhes da trama é o mais importante, porque qualquer coisa pode diminuir a sua experiência de leitura. Eu falo isso porque li o livro sem saber nada, acho que nem li o texto na contracapa. Sinceramente, eu faria o mesmo se pudesse. Piranesi ficou em 1º lugar no meu top 10 de 2024, e a leitura foi tão transcendental que eu acabei o livro e imediatamente quis ler de novo. Não li, porque eu precisava processar tudo, mas deu vontade. Até hoje. Quem sabe.

Se esse livro não entrar pro cânone do século XXI, eu não sei o que farei da minha vida. Como que ele só ganhou o Women’s Prize for Fiction e não foi nem nominado pro Booker Prize, eu não entendo. Aqui está o meu voto para a canonização e santificação do livro. A premissa é simples (e não quero contar muito mais): acompanhar o personagem principal, Piranesi, no seu dia-a-dia pela Casa, um mundo que é uma grande mansão de mármore branco com quartos infinitos cobertos de estátuas – abaixo disso, o mar.

E é isso. Clarke cria um mundo que é um ambiente vivo, um personagem inanimado. A relação da Casa com Piranesi é mágica e as descrições, oníricas, vívidas e lindas. Eu poderia fazer um trabalho acadêmico sobre como o Piranesi escreve tudo em relação à Casa em letra maiúscula – quem sabe um dia. E toda a simbologia e filosofia das estátuas e do mar profundo? Ai, chega até a acelerar o coração.

Piranesi é um livro curto em formato de diário. Ele não me prendeu com grandes tensões, mas me encantou com o seu mundo. Nos conectamos muito ao personagem principal, o que só faz qualquer pequeno inconveniente que ele sofre ser como farpas no coração do leitor. Por outro lado, o processo de evolução dele, que fica ainda mais claro nessa narração intimista, é completamente único e encantador. Acompanhamos de perto sua psique e as mudanças causadas ao longo da trama (mantendo-me vaga aqui por questão de spoilers).

Piranesi é um personagem muito magnífico em sua simplicidade. Ele só quer ser um bom Filho da Casa e está satisfeito em viver sua vida nesse mundo único. O que se destaca no livro pra mim, o diferencial, é que não há luta contra esse mundo. A Casa não é má, Piranesi não se interessa se existe algo além disso. Personagem e leitor ficam contentes em explorar as corredores de mármore e interpretar as estátuas.

Por causa da nossa posição, temos mais poder e entendimento sobre a situação de Piranesi que ele mesmo, graças também à sua própria narração. Como a autora vai, então, aumentando a curiosidade do leitor, a gente sabe que algo vai mudar, mas não há urgência. Ou melhor, por sabermos que algo vai mudar, entramos em luto por esse status quo tão pacífico, e não poderemos fazer nada que não assistir de camarote as dificuldades às quais o Piranesi estará sujeito.

Em uma nota, acho muito interessante a questão de gênero no livro dos três personagens mais atuantes – Matthew Rose Sorensen (chamado às vezes só de Rose Sorensen) é um homem, Valentine (que na minha cabeça é um nome mais feminino, ainda que possa ser usado para os dois) Ketterley também, e Sarah Raphael é majoritariamente chamada de Raphael. Essa dinâmica interessantíssima cria uma história em que gênero não importa, uma dicotomia estilística que impacta apenas o entendimento do leitor e indica como existem coisas mais importantes para a própria Casa.

Acho que eu talvez tenha explicado um pouco demais sobre o livro nessa resenha, mas este é um texto particularmente desafiador que eu venho arrastado com a barriga há meses exatamente por esse motivo. No meu Skoob, você pode achar uma discussão um pouco mais profunda se já tiver lido o livro. Novamente, não posso recomendar o livro o suficiente, porque eu nunca mais fui a mesma depois dessa leitura.

No Brasil, Piranesi saiu com o mesmo título pela Morro Branco, que é uma das minhas editoras preferidas do mercado atual. Por outro lado, não sei como está a tradução nem nada, porque eu não estou no país há meses e não me lembro nem qual foi a última vez que li um livro em português.

Se você gostou de Piranesi, de Susanna Clarke, você vai gostar de:

The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ – Philip Pullman;

De cada quinhentos uma alma – Ana Paula Maia;

Heartless – Marissa Meyer.

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