Terra Papagalli – José Roberto Torero & Marcus Aurelius Pimenta ?>

Terra Papagalli – José Roberto Torero & Marcus Aurelius Pimenta

Cosme Fernandes, que em alguns anos se chamará o Bacharel de Cananeia, começa sua história com as dificuldades de ser judeu em um país católico no século XVI. Em uma jogada de seus pais para que parassem de suspeitar da religião deles, Cosme Fernandes é enviado ao mosteiro de Bismela, onde estuda as lições de Deus (e o latim).

Alguns anos depois, Cosme Fernandes é degredado por um crime cometido enquanto acompanhava seu mestre. Em um navio que o levava para longe de toda a sua vida, Cosme Fernandes conhece os outros degredados, homens que cometeram alguns crimes piores do que amar a mulher errada. Mesmo assim, todos se tornam bons amigos, e Cosme Fernandes recebe o apelido de Bacharel.

Depois de diversas aventuras no mar, os degredados são abandonados onde eles eventualmente chamariam de Paraíso. Lá, eles convivem com os nativos e se deparam com ações e comportamentos impensáveis a homens cristãos portugueses: nudez, poligamia e canibalismo. Abandonados pela própria sociedade e inseridos em outra completamente diferente, os portugueses que não podem vencer os tupiniquins juntariam-se a eles, nesta Terra Papagalli.


Eu não dei nada por Terra Papagalli. O Torero foi no meu colégio e eu, pra não perder a viagem (e o autógrafo) comprei o livro. Meu. Deus. Que livro maravilhoso.

Eu tenho pouquíssimos livros amarelos, então ler um livro com uma capa mais vibrante foi interessante, até porque eu me senti muito mais atraída pela cor forte. Com isso, podemos concluir que leitores são insetos polinizadores. A diagramação interna é muito boa e há, em alguns casos, páginas com desenhos, como se fosse um livro antigo mesmo. Só gostaria de entender a pira da Alfaguara de fazer livros altos. Tive que reorganizar uma parte da minha estante para fazer Terra Papagalli caber.

Lendo o livro, me senti na presença de um Machado bem cru. Não é muito sabido porque eu não comento, mas eu adoro Machado (principalmente a escrita dele!). A escrita é bem rebuscada, e acho que nesse aspecto o Torero fez um ótimo trabalho, porque o personagem principal (que é o narrador) é do século XVI, da conquista do Brasil. Por isso, talvez não seja um livro para todo mundo. Para os que gostam de uma escrita mais rebuscada, embarquem. Outro ponto interessante do livro é que ele é dividido em vários capítulos curtinhos, e existe um aspecto cômico que deixa tudo muito fácil e rápido de ler.

Em questão dos personagens, posso dizer que eles são bem desenvolvidos até um ponto. Terra Papagalli é um livro curto, com narração em primeira pessoa, em uma alternância entre carta e diário de Cosme Fernandes para um conde. Por isso, a narrativa foca muito mais no próprio Bacharel, e todos os outros personagens ficam muito mais no pano de fundo. Lopo de Pina é o único outro personagem que tem um desenvolvimento maior na trama. Isso, sinceramente, não foi um problema para mim. Os outros personagens, de fato, nem foram tão importantes assim para a história de Cosme Fernandes e, dado o tamanho do livro, suas breves construções foram o suficiente.

Algo importante de ser dito é que o livro é uma metaficção historiográfica. O que é isso? Deixa eu enfiar um estudioso no meio:

A narrativa de ficção é quase histórica, na medida em que os acontecimentos irreais que ela relata são fatos passados para a voz narrativa que se dirige ao leitor; é assim que eles se parecem com os acontecimentos passados e a ficção se parece com a história.
(Paul Ricoeur)

Se você quiser ler o trabalho completo, clique aqui.

Resumindo, a metaficção historiográfica é um gênero literário no qual eventos históricos são vistos sob um olhar ficcional, com personagens (que realmente existiram ou não) que mostram o seu ponto de vista sobre o evento. “Nossa, mas isso aí lembra um romance histórico!”, você deve estar pensando. É. Sim. Mais ou menos. Só que não. São dois subgêneros realmente parecidos, mas a sensação que eu tenho, como uma garota de (quase) 18 anos que não é pesquisadora desse assunto, que o “romance histórico” como vemos hoje em dia faz mais referência a livros sobre mulheres europeias do século XIX, que têm personagens chamadas de “feministas” e são muitas vezes escritos na base de pesquisas rasas, enquanto “metaficção historiográfica” é um termo guarda-chuva, abrangendo hinos de livro como Terra Papagalli. Se não deu pra entender até agora, não, eu não leio nem gosto de romance histórico.

Enfim, o que quero dizer com isso, é que o livro é uma ótima visão da conquista do Brasil, apesar de que talvez um pouco otimista. Não há menções aos estupros e massacres aos índios, nem sobre como os portugueses trouxeram um monte de doenças estranhas que ajudaram a dizimar a população indígena.

Fora isso, Terra Papagalli é um livro incrível, muito bem escrito e pesquisado. Eu não acho difícil ele ser um dos melhores livros que eu li no ano e entrar para o top 10, mas acho que só saberemos em dezembro…

Se você gostou de Terra Papagalli, você vai gostar de:

Dom Casmurro, de Machado de Assis;

O cortiço, de Aluísio Azevedo;

Inside out & back again, de Thanhha Lai.

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